Em 1922, o diretor dinamarquês Benjamin Christensen lançou um dos filmes mais incomuns e provocadores da história do cinema: Häxan. O longa, cujo título significa “A Bruxa” em sueco, é uma obra difícil de classificar. Ao mesmo tempo em que apresenta elementos de documentário histórico, também utiliza dramatizações, cenas de horror e experimentação visual para investigar a origem das crenças em bruxas e demônios na Europa medieval.
Produzido entre a Suécia e a Dinamarca, o filme acabou se tornando uma das produções mais ambiciosas do cinema escandinavo da época. O orçamento aproximado chegou a dois milhões de coroas suecas, um valor extraordinário para os anos 1920, o que fez de Häxan o filme mais caro já produzido na Escandinávia naquele período. O projeto levou anos de pesquisa e preparação antes de chegar às telas.
Desde o início, Christensen não pretendia fazer apenas um filme de terror. A proposta era criar uma espécie de investigação cinematográfica sobre a história da bruxaria e sobre o medo coletivo que levou milhares de pessoas a serem perseguidas e executadas ao longo da história europeia.
Pesquisa histórica e inspiração
Antes de começar a filmar, Christensen passou cerca de dois anos estudando documentos históricos sobre bruxaria, demonologia e superstição medieval. Entre as principais referências estava o tratado inquisitorial Malleus Maleficarum, escrito no século XV e usado durante séculos por tribunais eclesiásticos para identificar, interrogar e condenar supostas bruxas.
Esse livro descrevia sinais de pacto com o diabo, rituais demoníacos e métodos de interrogatório, muitos deles envolvendo tortura. Ao utilizar esse material, Christensen buscava reconstruir como funcionava o pensamento da época.
Além do Malleus Maleficarum, o diretor estudou gravuras antigas, pinturas religiosas e textos históricos que descreviam a visão medieval do inferno, dos demônios e do sabá das bruxas.
Essas referências aparecem diretamente no filme. Em vários momentos, a narrativa apresenta imagens de manuscritos antigos e ilustrações históricas para explicar como a mentalidade medieval imaginava o mal, o diabo e os poderes sobrenaturais.
Um filme dividido em capítulos
Häxan é estruturado como uma espécie de aula visual sobre bruxaria. O filme mudo possui cerca de 105 minutos na versão restaurada e é dividido em várias partes que alternam explicações históricas e dramatizações.
Na primeira parte, o filme apresenta uma introdução sobre a visão medieval do universo. Gravuras e diagramas mostram como se acreditava que o mundo era dividido entre o reino de Deus e o domínio do diabo. Demônios, espíritos malignos e criaturas infernais eram considerados parte real da vida cotidiana.
O filme explica como as pessoas acreditavam que as bruxas eram capazes de realizar pactos com Satanás, provocar doenças, destruir plantações e causar desastres naturais.
Em seguida, Christensen começa a apresentar dramatizações dessas crenças.
Demônios, sabás e rituais
As sequências mais famosas do filme mostram reconstituições de rituais de bruxaria baseados nas descrições dos textos medievais.
Uma das cenas mais marcantes mostra um sabá, reunião noturna em que as bruxas supostamente se encontrariam com o diabo. Nesse momento, o filme apresenta figuras demoníacas grotescas, criaturas híbridas e cerimônias obscuras realizadas durante a noite.
O próprio Christensen aparece em cena interpretando Satanás. O diabo surge como uma figura com corpo peludo, chifres e expressão animalesca, seduzindo e manipulando as bruxas.
Essas sequências utilizam efeitos especiais rudimentares, mas extremamente criativos para a época. Uma das cenas mais impressionantes mostra bruxas voando sobre uma cidade medieval. Para criar esse efeito, a equipe construiu uma enorme maquete da cidade com mais de 250 casas em miniatura. A estrutura era movimentada por dezenas de técnicos enquanto as atrizes eram filmadas separadamente simulando o voo.
Para o público dos anos 1920, essas imagens eram ao mesmo tempo fascinantes e perturbadoras.
A perseguição às bruxas
Outra parte importante do filme mostra como funcionavam os julgamentos durante a caça às bruxas.
As dramatizações retratam interrogatórios conduzidos por autoridades religiosas e civis. Mulheres acusadas eram levadas diante de tribunais e pressionadas a confessar pactos com o diabo.
O filme mostra também os métodos utilizados para arrancar confissões. Instrumentos de tortura aparecem em cena, incluindo dispositivos usados para esticar o corpo das vítimas ou provocar dor intensa até que elas admitissem qualquer acusação.
Segundo o filme, muitas dessas confissões eram obtidas apenas porque as vítimas não suportavam mais a tortura.
Essas sequências deixam claro que as acusações frequentemente surgiam a partir de rumores ou suspeitas. Uma simples denúncia podia levar alguém a ser preso e interrogado.
A interpretação moderna do fenômeno
Nos capítulos finais, Häxan apresenta uma interpretação bastante ousada para a época. Christensen sugere que muitas das pessoas acusadas de bruxaria provavelmente sofriam de problemas mentais ou neurológicos.
Comportamentos considerados “demoníacos” no passado, como convulsões, alucinações ou crises emocionais, poderiam ser explicados hoje por condições psicológicas.
O filme também menciona episódios de histeria coletiva, nos quais comunidades inteiras acreditavam estar sendo atacadas por forças sobrenaturais.
Essa conclusão transforma o filme em algo mais do que um espetáculo de horror. Christensen tenta demonstrar que o medo e a ignorância podem levar sociedades inteiras a cometer injustiças graves.
Escândalo e censura
Quando estreou em 1922, Häxan causou forte controvérsia. Muitas autoridades e críticos consideraram o filme excessivamente perturbador.
Entre os motivos da polêmica estavam:
- cenas de nudez
- representações explícitas de tortura
- imagens de rituais demoníacos
- crítica indireta às instituições religiosas.



